Se a resposta ficou fácil, a pergunta precisa melhorar
Com a inteligência artificial, produzir respostas ficou rápido. O desafio agora é elevar a régua: mais profundidade nas análises e mais consistência nas decisões.

Estamos vivendo uma verdadeira revolução. Eu não a reduziria a uma revolução tecnológica, pois ela é também comportamental, social e até emocional. Com o avanço da inteligência artificial, a expressão “na velocidade da luz” parece fazer parte das nossas expectativas: queremos respostas, soluções e resultados quase imediatos.
Mas vamos contextualizar. Certa vez, ao receber um relatório, perguntei a um líder: “Você usou IA?”. Fiz a pergunta propositadamente, sem demonstrar crítica ou elogio.
E aí veio o silêncio. Não satisfeita, perguntei novamente. Enquanto aguardava, eu mesma submeti o relatório à ferramenta. Quando veio a resposta — “Não precisou” —, respondi: “Precisava, sim”. E começamos uma conversa sobre a necessidade de rever nossos processos.
Não posso afirmar o que motivou aquela resposta, mas a situação me fez pensar: será que utilizar inteligência artificial ainda pode ser visto como uma demonstração de menor competência? Tenho a percepção de que esse desconforto existe e merece ser discutido.
Durante muito tempo, reconhecemos o bom profissional pela quantidade de informações que dominava e pela rapidez com que respondia. Afinal, desde que o mundo é mundo, damos valor ao esforço de quem realiza algo. Quanto mais trabalhoso parecia ter sido o caminho, maior poderia parecer o mérito da entrega, mesmo quando esse esforço não se traduzia em um resultado relevante.
O Fórum Econômico Mundial, no relatório sobre o futuro do trabalho de 2025, aponta pensamento analítico, flexibilidade e liderança entre as competências mais valorizadas pelos empregadores consultados. Aprendizagem contínua e habilidades tecnológicas também ganham importância.
Mas aprender — e, principalmente, desaprender para se adaptar — exige disponibilidade. E aqui falo também de nós, líderes. Como estimular uma equipe a rever sua maneira de trabalhar se continuamos presos às nossas próprias certezas? Como cobrar novas competências sem criar espaços e estímulos para desenvolvê-las?
Precisamos rever os processos e o modo como distribuímos nosso esforço. Lembro perfeitamente do trabalho que tive com a formatação do meu TCC: as regras da ABNT, a conferência dos parênteses, o uso das letras maiúsculas. Curiosamente, não lembro com a mesma clareza do tema ou de sua aplicação. O esforço com a forma ficou mais presente na minha memória do que o sentido daquele trabalho.
Hoje, muitas dessas etapas podem ser realizadas em minutos. Isso abre espaço para dedicar mais atenção ao conteúdo, à argumentação e à aplicação do que produzimos. Caso contrário, teremos apenas documentos prontos em menos tempo.
Por isso, considero raso dizer que tudo ficará mais fácil. O tempo economizado não resolve, por si só, a falta de direção, o despreparo de uma equipe ou a dificuldade de tomar decisões. Podemos produzir mais e continuar sem clareza sobre o que merece prioridade.
No artigo anterior, compartilhei como uma organização não pode depender continuamente da intervenção de quem lidera. Agora, preparar pessoas para agir com autonomia também significa ajudá-las a utilizar a inteligência artificial com competência e ética.
Volto, então, à pergunta inicial. Mais do que indagar “você usou IA?”, hoje eu ampliaria a conversa: “O que essa análise nos ajuda a compreender? O que você verificou? E por que devemos seguir esse caminho?”.
Precisamos elevar a régua: se a tecnologia amplia nossa capacidade de produzir respostas, devemos exigir mais profundidade nas análises e mais consistência nas decisões. Rapidez e boa apresentação são insuficientes sem raciocínio, critérios e contribuição para os resultados.
Se a resposta ficou fácil, a pergunta precisa melhorar.
As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a posição do Paraíba Hub.