O olho do dono é que engorda o boi
Em artigo de opinião, o autor defende que a presença do líder não basta e que decisões precisam ser distribuídas em diferentes níveis da organização
Durante gerações, essa expressão atravessou o mundo dos negócios como uma verdade quase incontestável. Bastava o dono estar presente, acompanhar de perto e cobrar com firmeza para que se acreditasse que a empresa estava bem administrada.
Curiosamente, essa crença persistia mesmo quando o próprio dono não demonstrava as competências necessárias para conduzir o negócio. A autoridade parecia valer mais do que a capacidade de liderar.
Mas os negócios mudaram, e as habilidades exigidas de quem lidera se tornaram muito mais complexas. O líder de hoje precisa estar preparado para lidar com cenários ambíguos, decisões interdependentes e transformações cada vez mais rápidas.
Uma das ideias presentes na cultura de gestão da Netflix, associada à liderança de Reed Hastings, é a de que boas decisões precisam ser tomadas em diferentes níveis da organização, sem depender continuamente da intervenção de seus dirigentes.
David Marquet, no livro Turn the Ship Around!, traz uma reflexão interessante a partir de sua experiência no comando de um submarino: distribuir decisões não significa perder autoridade. Significa preparar as pessoas para decidir com competência, responsabilidade e clareza sobre os objetivos que precisam alcançar.
Lembro de uma época em que sair de férias significava apenas continuar trabalhando de outro lugar. O telefone tocava, as decisões chegavam e os problemas pareciam não encontrar solução sem minha participação. Confesso que havia uma sensação de importância nisso tudo. Afinal, se precisavam tanto de mim, era porque eu fazia falta.
Hoje, vivo uma experiência diferente. Posso me ausentar, e a organização continua funcionando. As equipes decidem, os processos seguem e os resultados continuam sendo acompanhados.
Essa mudança me fez compreender que liderar exige muito mais do que estar presente e cobrar resultados. Exige estruturar processos, desenvolver competências, estabelecer prioridades e mobilizar pessoas em torno de um propósito. É fazer com que cada um compreenda sua importância no resultado coletivo.
Em tempos de transformações rápidas, conhecer a operação continua importante, mas já não basta. O líder precisa interpretar cenários, fazer perguntas melhores, antecipar riscos, tomar decisões difíceis e desenvolver pessoas capazes de agir com autonomia.
Peter Drucker, um dos grandes pensadores da administração afirma que uma empresa pode ter profissionais competentes, processos eficientes e pessoas trabalhando muito e, ainda assim, não alcançar os resultados. E isso pode ser consequência da falta de direcionamento.
Mas precisamos ter cautela. A linha entre autonomia e ausência de direção é muito tênue. A liderança precisa encontrar o equilíbrio entre direção, responsabilidade e resultados. Pois o olho do dono pode até engordar o boi, mas sua ausência pode matar a boiada.
E aqui não estamos falando de uma presença que controla tudo, mas de uma presença estratégica, qualitativa e capaz de elevar o nível de toda a organização.
As mudanças no mundo nos negócios, provoca uma necessidade de adequação de papéis e comportamentos e elevam cada vez mais as habilidades dos seus líderes.
Podemos fazer uma analogia com o avanço da inteligência artificial. Para quem pensa que ela veio apenas para facilitar tarefas, ledo engano. A IA veio elevar as exigências sobre as competências humanas, tornando cada vez mais necessários pensamentos complexos, criativos e sofisticados.
Mas essa é uma próxima conversa.
O texto parte da expressão popular "o olho do dono é que engorda o boi" e sustenta que as habilidades exigidas de quem lidera se tornaram mais complexas diante de cenários ambíguos, decisões interdependentes e transformações rápidas.
O autor faz uma analogia com o avanço da inteligência artificial, afirmando que ela eleva as exigências sobre as competências humanas, e indica que tratará do tema em uma próxima conversa.
As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a posição do Paraíba Hub.